Sentimentalmente leviano.

Sinceramente, quando fizeram aquele conselho todo sobre o filtro solar, esqueceram um monte de outras coisas. Já mandei o filtro solar “pras cucuias” umas mil vezes. Mas tem algo naquele texto sobre o qual eu estava refletindo que valeu relembrar. “Não seja leviano com o coração dos outros.” Essa frase que está escondida entre tantas coisas que parecem mais importantes, deve ser o provável maior conselho que existe naquela lista toda. Até acho válido usar o fio dental, mas se você não for responsável com o sentimento alheio, não vai adiantar abrir os dentes porque tudo que você vai causar com isso é dor. Enfim.

Antes de discorrer demais sobre a questão, a explicação. A única coisa que nos mostra a vivacidade, que nos comprova estarmos vivos, são os nossos sentimentos. Bons ou ruins. Tudo aquilo que fazemos, tudo aquilo em que acreditamos, absolutamente tudo em que nos apoiamos vêm exclusivamente dos sentimentos que tivemos, temos ou achamos que vamos ter. E muita gente consegue ser espetacular e tirar proveito disso, mesmo quando os sentimentos são os piores possíveis. Mas muitas outras pessoas não. Ser leviano com o sentimento alheio é arriscar enaltecer ou afundar uma pessoa para sempre. É usá-la como isca, brinquedo, teste de laboratório para ver o que lhe causa maior prazer. Sem contar que é uma tremenda falta de sentimento de sua parte para com a outra pessoa. Ser leviano é não se importar se ela está ou não inclusa no mesmo contexto. É deixá-la para trás sem virar-se.

Foto: reprodução

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E o que acontece quando a pessoa fica sujeita à esse desrespeito do outro? Melhor começar mostrando o que significa portanto essa coisa de ser leviano. Leviano: que procede ou julga precipitadamente, sem refletir; inconsideração; imprudência. E é exatamente como consta no dicionário. Você percebe que alguém se tornou mais acessível ou vulnerável por lhe querer como amigo, por ser alguém próximo da família, ou por ser eternamente apaixonado por você, e passa a usar desses sentimentos sem a menor responsabilidade para com a pessoa. Você não se importa com a profundidade do que ela sente, não tá nem aí se vai machucá-la ao dizer da sua nova paquera, e vai rir da cara dela pelas costas a cada frustração. Você não vai ajudá-la se perceber que acabou envolvendo-a por suas palavras, gestos ou sorrisos. E no pior dos casos, vai acabar se deixando participar de uma relação (seja ela qual for) sem realmente querer ou sentir o suficiente para isso.

Mas tem como medir o que se sente? É justo que eu saia de uma relação só porque o outro gosta muito mais de mim do que eu dele? Não necessariamente, quando você envolve a palavra “consideração” no meio. Se você está aprendendo a gostar, construindo uma amizade, se deixando conquistar, ou simplesmente fazendo de uma convivência familiar obrigatória algo mais agradável, sempre pensando em ser transparente, franco e se colocando também no lugar do outro, ótimo. Mas quando você muda tudo da noite para o dia, larga, troca, esquece, ignora, some, tira da pessoa tudo aquilo que ela tinha como porto-seguro… Aí meu amigo, você me desculpe, mas você não deve ser dos seres mais legais que habitam esse planeta.

O resultado das suas atitudes tão despretensiosas, livres, independentes e felizes é uma outra alma extremamente marcada pelo receio. É um trauma tão grande que se cria que muitas vezes, mil anos não conseguem curar. E tudo isso porque você arrancou sem dó nem piedade a capacidade do outro de acreditar. Nos demais e até em si mesmo. Apesar do que possa parecer, não é legal ser lembrado assim eternamente. Porque uma pessoa que foi tratada de forma leviana ou vai acabar tratando todo mundo de forma leviana também, ou vai sentir medo de que da noite para o dia, tudo desapareça de novo. E vai ser uma pessoa que vai precisar pensar e repensar trinta mil vezes antes de poder dar mais um passo. Tudo isso porque ela já caiu no buraco e não quer mais passar por esse sufoco. E não vai importar o quanto alguém queira mostrar que está tudo bem… Só vai dar para acreditar mesmo, provando a cada gesto, com toda paciência, que dessa vez, não vai acontecer.

Esse cenário se repete em amigos que já não conseguem confiar tanto de suas vidas aos outros, em relacionamentos onde um sempre tem por certo que o outro vai deixá-lo não importa quanto amor haja, e até em famílias, onde a relação com os pais por exemplo, reflete automaticamente na relação com os filhos, criando bloqueios que podem levar uma vida toda para serem superados. Agir com leviandade com o outro é um desrespeito com consequências graves. E enquanto você consegue seguir tranquilo com a sua vida, outras pessoas doerão por sua irresponsabilidade.

O que você perde com isso? Muita gente leviana não perde absolutamente nada. Afinal, não são elas as machucadas. Mas provavelmente você deixa de ganhar o melhor das pessoas, um mundo melhor ao seu redor, uma sociedade melhor para se inserir. Porque a grande questão é que uma atitude irresponsável com o sentimento do outro pode causar verdadeiras revoluções comportamentais e fazer de gente tão de bem verdadeiras ameaças à paz e ao amor, em todos os sentidos. Pode fazer do que seria a felicidade do outro, a infelicidade de mais tantos. E eventualmente, quem sabe por justiça divina ou puro comportamento cíclico, fazer daquele com quem finalmente você deseja se envolver, alguém já marcado por outras irresponsabilidades.

Sentimento é coisa séria. Então se você não sente, ao menos, respeite.

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