O amor, os aviões e os sites para infiéis.

Toca o despertador. É  um barulho alto, incômodo, que notoriamente não foi feito pra agradar a audição, mas sim para ser notado. O homem acorda, e aperta o botão do rádio relógio, vira pro lado e vê sua esposa também acordando.

É uma terça-feira qualquer no meio de uma semana qualquer. No ano em questão, não existe uma data romântica do casal a ser completada, não pelo menos que eles lembrem, afinal , já faz tanto tempo, que ambos não se recordam dessas datas mais particulares, como primeiro beijo, ou o dia em que se conheceram… Essas datas se perderam no tempo e no descuido mútuo com a atenção que deveria ser dada a tal. (aviso de falha no motor). A única data que sobrou foi o aniversário de casamento, trinta e dois anos. Nada que seja motivo de comemoração ou grandes festas segundo os padrões da sociedade,porém é a única que se recordam.
Sua esposa emite os sons típicos de alguém que reluta a despertar para mais um dia de trabalho. Enquanto ela vai para a cozinha preparar para o café para ambos, ele a observa por alguns segundos. Em seu íntimo, compara as já não tão definidas curvas de sua mulher com a linda morena do comercial de perfume na contracapa da revista da cabeceira, e conclui mentalmente: “acho que preciso de algo diferente mesmo.” (aviso de despressurização da cabine)

A cena da comparação matinal entre a modelo da revista e sua esposa não foi por acaso. Em seu trabalho no dia anterior, ouviu seus colegas comentarem a respeito de um site para pessoas casadas arrumarem amantes. Sim, amantes. E então esse homem colocou em sua cabeça que vive uma crise em seu casamento. O casal não tem um motivo escandaloso para as divergências, embora sejam rotineiras. Eles apenas não estão “com os ponteiros acertados.” Cansado devido a mesmice e essas constantes pequenas discussões com sua esposa, fez o que qualquer pessoa em busca da reestruturação do casamento e da reconciliação da felicidade conjunta faria, só que ao contrário:  acessou o site que ouvirá falar, e conseguiu um encontro extraconjugal com alguma menina de apelido “P@nterinha85”.

 

Foto: reprodução

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Com a desenfreada explosão tecnológica das últimas duas décadas,  aonde antes pedir uma pizza online era um avanço digno de respeito até para quem relutava a aprender a utilizar um computador, de alguns anos pra cá, já é possível não só arrumar um companheiro para compromisso sério, como também conseguir um encontro extraconjugal em um site feito especialmente para tal finalidade.

Segundo estatísticas, homens com mais de trinta anos são os que mais acessam esses sites, seguido por mulheres com mais de quarenta anos. Notoriamente podemos traçar o perfil de maior acesso aos sites, de acordo com a idade próxima do ápice de produção hormonal de cada sexo. Podemos ter assim uma ideia do que buscam os usuários desses sites. No Brasil, sites como o Ashley Madson e o Second Love, já reúnem milhões de usuários, que pagam mensalidades que variam de acordo com o gênero do usuário, girando em torno de vinte e nove reais mensais para homens. Essas empresas nos últimos anos, investiram mais de quatro milhões de reais em ações de marketing apenas no Brasil, acreditando que aqui, pela imagem de cultura de forte apelo sexual que temos lá fora, teriam um retorno considerável, e de fato foi mais que o esperado.

Mas será mesmo que é apenas sexo que buscam essas pessoas? Imagino que não. O que leva uma pessoa, se relacionar com outra, de qualquer forma sexual ou romântica, sem antes sequer, cortar uma relação supostamente de confiança com a anterior, sem terminar o casamento atual primeiramente?  Inúmeras pesquisas que já foram realizadas, especulando a respeito dos motivos que levam a traição, mas por ser uma questão tão íntima, instintiva e particular do ser humano, eu não acredito nas respostas dadas nessas pesquisas. Não acho que tudo se resuma a um simples resposta dentre algumas alternativas.

Não acredito sinceramente, que um ser humano pensante, vivendo anos com uma mulher ou homem,  que em teoria cumpre suas obrigações como cônjuge, além de dar o mínimo de afeto necessário,  sendo na maioria das vezes seu melhor amigo ou melhor amiga, possa colocar tanto em jogo por uma simples aventura. Prefiro pensar de uma forma mais ampla, a respeito dos motivos que levam a ruína de um casamento ou a uma traição, seja ela virtual ou não. Não vou difamar ou julgar quem já é usuário desses sites ou praticante assíduo do ato de infidelidade, mas sim tentar ajudar. Afinal, quem é que quer um dia encontrar com seu marido ou esposa,  no banco de um shopping  após os dois marcarem um encontro as escuras através de um site de traição? Brincadeirinha à parte, sou a favor da instituição do casamento à moda antiga, aquele da época de nossos avós, aonde uma traição divulgada era motivo para que o bairro inteiro ficasse chocado, e não apenas mais um número em milhares em um site. Refleti bastante ao longo da vida, a respeito dos motivos que levam à ruína do matrimônio, pensamentos esses,  que comecei a refletir ainda jovem quando vi meus pais enfrentarem um duro divórcio.

Um conjunto de fatores é o que leva ao fim. A falta de atitudes por ambos após diversos sinais que algo não está correto é a morte da relação. Qualquer tipo de problema ou descontentamento dentro de uma relação deve ser discutido e exposto, por mais maçante que seja a repetição desse processo ao longo dos anos.  Mesmo um desejo íntimo, uma necessidade de aventura ou algo diferente,  se algo não está correto entre as quatro paredes, deve ser debatido até a exaustão, e mesmo além dela. Problemas e divergências existem, seja morando com sua mãe , esposa ou apenas com seu cachorro (sim,até com ele eu brigo). O que importa é estar com alguém com quem se sinta a liberdade de falar sobre tudo, afinal, ninguém escolhe um qualquer para se relacionar, com quem não se tem nenhum sentimento nem de confiança. Ou pelo menos não deveria escolher.

O problema é que na falta dessa coragem de expor, no medo de não ser aceito pelo próprio escolhido, ou até mesmo por acreditar que certa é essa sociedade sem nenhum compromisso com nada, as pessoas acabam deixando tudo se acomodar e passar, como se o amor, o desejo, a paixão fossem obrigações naturais que o corpo deveria produzir quando visse aquela pessoa. E não é assim. Uma relação é moldada sobre uma série de bases e de aspectos que são construídos diariamente, muito mais difícieis que ir trabalhar todo dia. A grande questão é que muita gente entra em uma relação sem nem mesmo entender o que ela exige de cada um de nós. E o resultado são os problemas sepultados sob camadas e camadas de segredinhos.

A sociedade? Se aproveita e como gosta de ganhar dinheiro em cima de tudo, independente de estar certo ou errado, influencia através de sua tecnologia. E aí começam os casinhos despretensiosos, romancinhos com quem também “só está aqui para curtir porque ama mesmo a outra pessoa”, e esquecem-se dos pilares sobreos quais o amor de verdade se constrói. Como a confiança, por exemplo. E os resultados são enganação, término e dor, e tudo mais que se pode sentir quando um relacionamento monogâmico e fechado é corrompido. Digo isso porque hoje existem vários tipos de relação, e se ser fiel não é a sua praia, talvez, alguns outros modelos possam servir muito mais do que um casamento, por exemplo.

 

Foto: reprodução

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E ontem, quando muita gente resolveu usar o dia mais romântico do ano para começar uma nova relação, as floriculturas se dividiram entre o buquê da esposa e o da amante… O chocolate de cereja do fulano caiu no escritório do beltrano, que deveria receber chocolate ao leite. E lá fora, inúmeros casaizinhos apaixonados resolveram firmar seus laços, acreditando apenas no instinto inicial e não avaliando tudo que a relação exige. E não que eu queira tirar o romantismo desse dia,  mas acho importante que perdurem hoje as relações de verdade, e não só aquilo que se quer na superfície. Que o dia dos namorados possa ter de fato o namoro, o romance, a paixão e não só um laço que se corta na tesoura ou no click.

Quanto ao principal motivo que leva a traição ou ao fim de um casamento?  Bom, se algum dia, você encontrar um especialista em aviação civil, pergunte a ele o principal motivo de uma queda de avião nos dias atuais. Nunca será apenas um motivo, será sua resposta. Em termos leigos, tal resposta se parecerá com algo assim: “se por acaso o avião apresentar algum problema, luzes se acenderão na cabine, indicando a situação para que o piloto possa tomar alguma decisão de imediato, (como um aviso de falha de motor por exemplo). Se ainda assim o piloto por descuido não observar tais luzes, sistemas de emergência irão assumir automaticamente o setor danificado tentando reverter a situação, e o piloto que antes tinha as luzes do problema inicial acesas, agora tem também os indicadores que os sistemas de emergência assumiram, para que fique ciente disso também.

Em qualquer momento durante os avisos, ou procedimentos automáticos, o piloto pode assumir e tomar as atitudes para qual foi preparado. Supondo que tudo dê errado, e o avião comece a cair ou despressurizar, máscaras de gás ajudarão a te manter lúcido para qualquer atitude emergencial que seja necessária por parte dos passageiros. Existe ainda, a possibilidade do pouso de emergência, seja em terra, ou mesmo na água, afinal os assentos são flutuantes. Se tudo isso der errado. O avião cai e pessoas morrem, mas nunca será um motivo apenas. O avião, o piloto, e todos seus sistemas de segurança e instrução estão ali justamente para trabalhar quando algo der errado.”
Toca o aviso de emergência do avião.
É um barulho alto, incômodo, que notoriamente não foi feito pra agradar a audição, mas sim para ser notado.
O piloto nada faz.
O aviso de falha sugere que o piloto tome o controle do avião para modo manual, e tire do piloto automático.
O piloto nada faz novamente.
O avião cai.

O homem acorda, é uma quarta feira qualquer. Ele aperta o botão do rádio relógio e vira pro lado.
Sua esposa não está lá.
A P@nterinha85 também não.
Ele está atrasado, e não fez seu café.
A P@nterinha85 também não.

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