O que eu vi das manifestações?

Eram quase trezentas mil pessoas. No dia dezessete de junho de dois mil e treze, por volta das dezessete horas, o Brasil parou. Por algumas horas, que se estenderam até o início da madrugada, não havia mais pobres ou ricos, não havia mais playboys ou miseráveis… Por dentro das massas, não havia mais corinthianos ou são paulinos, e até mesmo os fanáticos torcedores nesse dia, andaram lado a lado, cantando um hino, que para algum deles, assim como pra mim, fez sentido pela primeira vez na vida. E não eram os hinos de seus clubes. Era o hino do Brasil.

Era por volta de quatro da tarde quando cheguei, junto a um amigo, à Paulista. Carros de telejornais se amontoavam, esperando a multidão que subia a Rebouças e a Consolação, em sentido ao local onde estávamos. Observávamos até então, alguns jovens
felizes, em grupos isolados, muitos com bandeiras, muitos com visuais modernos e descolados, quando então o chão tremeu. Nos segundos que vieram a seguir, lembrei muito de um filme chamado 300 de Esparta, aonde após um forte tremor de terra, o sub-comandante do exército grego diz a seu comandante: Meu senhor, terremoto!. Quando então para a surpresa de todos, Leônidas responde: Não capitão. São formações de Batalha.

O chão tremia, e a mesma frase veio a minha cabeça na versão sem legendas:”Battle formations”. Nas grades do chão da paulista , usadas para ventilação subterrânea dos acessos do metro, os gritos de guerra abafavam os barulhos dos trens, sons que ecoavam literalmente do solo, dando uma impressão fantasmagórica ao cenário, quando quase que simultaneamente, como se literalmente um grande monstro acordasse, viraram a esquina, para adentrar o local que estávamos, os sessenta mil ativistas. Eram cartazes, bandeiras, gritos. Sim, gritos. Gritos entalados na garganta, que por décadas não eram desabafados. Muitos ali não entendiam de política, ou de fato não pareciam ter que pegar ônibus diariamente, mas todos com certeza, tinham a plena convicção que algo esta errado. E deixaram isso bem claro.

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É sabido que é impossível dentro de uma massa tão grande, não haver um pequeno grupo ou indivíduos mais exaltados, que partem para a violência ou depredação, mas nesse dia, o impossível aconteceu. Percorri dentre as ultimas fileiras da manifestação, todo o contigente de pessoas já haviam passado por onde eu passava, reparando, sempre atento a violências de qualquer tipo de ambos os lados para registrar, e absolutamente nada aconteceu nesse sentido. Foi sensacional o show de civilidade e inteligência que a juventude deu , provando que pode sim se organizar e evitar que coisas ruins ocorram.

Nas janelas, escritórios, casas, pessoas com câmeras e lençóis brancos, que eram aplaudidos como reis pelos ativistas, só por estarem agitando essas toalhas em suas janelas. Em determinado prédio, a manifestação chegou a parar, ao ver em uma janela, uma criança, que por volta dos seus sete anos de idade agitava uma bandeira do Brasil na janela. A multidão parou e essa criança foi aplaudida por cerca de dois minutos seguidos, antes de prosseguirmos.
Meus olhos já estavam cheio de lágrimas. Pude perceber o mesmo sentimento em uma dezena de pessoas a meu redor, de diversos gêneros e classes. O estopim para as primeiras lágrimas caírem, foi quando em uníssono, os bordões que usavam palavras de baixo calão dirigido a governantes, foi trocado pelo hino nacional brasileiro, que repito, pela primeira vez na vida fez sentido para mim. Algo parecido com as músicas bregas românticas que odiamos, e faz todo sentido quando estamos apaixonados.

E é exatamente esse o sentimento. Estamos todos vivendo uma grande paixão.

Alguns criticam as manifestações, por puro egoísmo, como vontade de chegar logo em casa, presos no trânsito, ou por não entender em ou se interessarem por política. Não acho que sequer deva fazer qualquer tipo de comentário a respeito de tais opiniões, porque não partilho da opinião contra, por isso não me aprofundarei a essa visão, para limitar a imparcialidade do que presenciei e senti.

O assunto do dia é esse, o assunto da semana, do ano provavelmente, aqui e no mundo.
Fui ao mercado hoje, e senhores já idosos, conversando orgulhosos sobre como finalmente a juventude acordou. Um deles dizendo até que se fosse mais novo e não tivesse tantas dores, iria adorar participar das manifestações. Neste instante, estou em um ônibus de viagem para outra cidade para resolver assuntos pessoais. Enquanto escrevo, no banco de traz, um senhor conversando com uma moça, diz também o quanto felizes estão, e torcen para que as manifestações não parem nos vinte centavos.

Existe muito clichê a ser dito sobre esse tema, e quem me conhece sabe que odeio clichês, então escrevo esse texto breve hoje, tentando descrever o meu sentimento e o da grande maioria dos brasileiros. O povo acordou, o Brasil vai mudar, a palhaçada acabou. De fato muito tem se falado, que após as reduções das tarifas, o movimento ficou mal direcionado. Por tal razão pequenas lideranças estão se formando, e o gigante vai voltar, reivindicando o que de fato é seu.

Quero agradecer a cada um dos heróis (leia-se “não vândalos”) que percorreram as ruas desse país nas ultimas semanas, dando uma aula de moralidade a governantes inescrupulosos e dando orgulho as gerações que antes de nós estiveram na rua.

Torcemos hoje para que a chama continue acesa, para que os criminosos infiltrados sejam recolhidos da sociedade, e que vençamos, talvez não por nós, mas por nossos filhos e netos.

Muito obrigado Brasil, foi uma semana de fortes emoções.

E como diríamos no poker: VAMOOOOOOOOOOOO!!!!!!

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