Trabalho: manifeste-se!

Toda segunda-feira é a mesma coisa. Aquela agonia de levantar da cama, aquela vontade de ficar mais um pouco, aquele desespero de saber que tem uma semana inteira pela frente de puro trabalho. E é simplesmente insuportável ouvir que isso é coisa de vagabundo ou de gente que não gosta do que faz, por motivos bem simples: primeiro que quem diz isso geralmente é o que mais sente essa mesma coisa e precisa achar algo pra despitá-la, e segundo que gostar do que se faz nada tem a ver com a obrigacão de fazê-lo dentro dos moldes sociais. Ok, mas do que estamos falando, afinal?

Sou, e sempre serei, defensora do trabalho como um mecanismo de felicidade. Algo que te proporcione crescimento, amadurecimento, experiências felizes de satisfação consigo mesmo, e principalmente, como ferramenta para melhorar a vida, por obviamente, prover dinheiro. Acredito que já que inventaram a porcaria do dinheiro, então se for para ganhá-lo, melhor que seja mesmo honestamente e com algo que só dependa de você e da sua capacidade. Mas aí toda segunda-feira, analisando as pessoas ao meu redor, as redes sociais e o meu próprio histórico, vejo que não é assim que a coisa anda.

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Acontece que o trabalho não depende só da nossa capacidade. Não importa o quanto você seja capaz de produzir às três da manhã, que praticamente ninguém vai se importar com isso, porque você depende do horário certo para produzir. Seu sono, seu melhor momento, sua hora mais criativa não contam. Não contam também porque você tem alguém superior a você que muitas – quantas vezes eu já vi!!! – vezes prefere cortar a sua sacada super inteligente porque fica com medo de ser ultrapassado por você, ou simplesmente porque sente preguiça em executá-la, por exemplo.

A verdade é que o problema do trabalho é exatamente porque ele não depende só da gente. Ele depende da roupa que a gente vai usar o no escritório e da parte do salário que precisamos gastar com isso mas que ninguém coloca no papel quando quer te contratar. Ele depende de um sistema velho e burocrático de controle, onde é preciso que os funcionários estejam sob o teto da empresa ainda que o mesmo trabalho possa ser executado de outro país, só porque não acreditam que você realizará com o seu lado do acordo. Depende de uma avaliação de qualidade diretamente relacionada ao número de horas que seu cartão-ponto contabilizou, e completamente oposta ao quanto você realmente quis e conseguiu fazer a atividade.

O problema do trabalho é que ainda que ele seja uma ferramenta para melhorar a vida, ele ignora tudo que você tem de pessoal, te deixando apreensivo e nervoso, e portanto, piorando a vida. Não quer saber se você está com problemas, se perdeu alguém, se está doendo… Inclusive, se estiver mesmo doendo, precisa comprovar com atestado médico porque palavra não vale nada. E isso sem nem mencionarmos a parte prévia das entrevistas, onde simplesmente você precisa estar agora do outro lado da cidade, mas ninguém se importa em responder a sua disposição, nem que seja simplesmente com um obrigado.

E sim, eu sei que tem gente aí julgando todo mundo pelos errados. Por aqueles que tiram proveito dessas situações, aqueles que não fariam nada se não fossem as regras… Mas eu vejo o mundo pelos meus olhos, e o que eu vejo são as pessoas honestas e não os salafrários. E ainda que eu visse, me faria perguntar: se todo mundo que pudesse burlar o sistema, realmente burlasse, isso não significa que a grande verdade é que todos odeiam essa porcaria de sistema?

Seja lá como for, a questão que trago aqui hoje é que no meio de um país em chamas, onde todos brigam por centenas de melhorias (práticas e utópicas), esquecem-se do básico. Do principal. Da fonte de onde saem os impostos, daquilo que faz com que todo o resto do país possa ou não funcionar, daquilo que todo mundo precisa no mundo capitalista: o trabalho. E enquanto o trabalho tiver vestígios de um sistema escravo, de um sistema que duvida de seu trabalhador, e de um sistema que acredita que está fazendo um favor ao seu trabalhador – ainda que não funcione sem ele, o resto será paleativo.

Sim, porque para conseguir educação de qualidade, é preciso de professores bem descansados, com a mente atenta, com a criatividade em alta. Para ter boa saúde, precisamos de médicos alertas, com boa memória para acessar informações aprendidas, e com tempo para especializações e atualizações. Para termos bom transporte e boa estrutura, precisamos de engenheiros calmos, de cálculos precisos e preocupados com os demais. E como é que teremos esses profissionais se nem se quer consideramos a necessidade de tudo isso em uma greve geral?

Além do salário, que precisa sim suprir a roupa, a comida, as despesas, e sim, o lazer e a família, é preciso pensar no sistema todo. É preciso lembrar que se fossêmos mesmo uma maioria de folgados, talvez as empresas não nos aprovassem de fato para entrarmos em seus escritórios. Se fossêmos mesmo tão substituíveis, não fariam de tudo para nos manter entretidos com outras causas, para jamais levantar esse tipo de direito. E se fossêmos mesmo sempre os vilões da história, não haveria a necessidade – ou seria no mínimo inversa – de termos leis tão rigorosas trabalhistas.

Antes de tudo isso que estamos reivindicando, lembrem-se: precisamos primeiro de um sistema de trabalho eficaz. Precisamos lembrar que acima de tudo isso, nós temos o poder, não só por sermos uma massa de brasileiros, mas sim por sermos uma massa de trabalhadores. De mão de obra que é explorada por companhias de fora exatamente porque aceita a condição que tem – ou precisa aceitar. Precisamos brigar pela real vértice de todos os problemas: a dignidade do profissional. Seja lá em qual nível e área for. Porque só teremos um país feliz quando formos felizes. E só seremos felizes quando o trabalho for a nossa ferramenta de vida, e não a nossa vida ferramenta do trabalho.

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