Mundo sem Mulheres. Sem sentido. E sem noção!

O mundo sem mulheres. Esse é o novo quadro do Fantástico. E se o mundo não tivesse mesmo mais nenhuma mulher, talvez você sentiria falta de algumas, não é?  Desde as mais baixinhas até as mais velhas. Talvez Emma, a primeira menina a ser curada da leucemia, ou sua mãe Kary numa tremenda lição de perseverança e fé? Ou quem sabe Angela Zhang, a jovem de apenas 17 anos que está estudando a cura da doença e fez grandes avanços a respeito? Algo um pouco mais pacífico talvez, como Wangari Maathai, primeira ganhadora africana do prêmio Nobel da Paz? Zilda Arms? A Simone, que é uma diarista aqui da minha casa ou da metade das pessoas que eu conheço, que ajuda quando nós não podemos cuidar da nossa própria casa? Minhas melhores amigas e minha irmã, que carregam situações complicadas que ninguém mais entende? Minhas avós, que lutaram contra suas épocas para trabalharem ou criarem seus filhos sozinhas? Ou minha mãe, que apesar de não trabalhar fora, sempre foi uma tremenda guerreira, que ajudava em todos os momentos na profissão do meu pai, e ainda nos transmitia valores insubustituíveis?

Ok. Você não sentiria falta da minha mãe especificamente. Mas será que seria tão resumido quanto à série do Fantástico? Porque por lá, um mundo sem mulheres é apenas um mundo sem atividades do lar e filhos criados. Ainda que estas mesmas mulheres tenham feitos impressionantes em suas vidas, o que o programa de horário mais nobre da tv aberta, no domingo, quer é que você sinta falta da serviçal. Não importa a falta que faria sua história, sua profissão, suas conquistas. Em alguns casos, ninguém sente falta nem do amor da mulher. E ainda que se trate de uma dona de casa, não importa se é ela quem administra finanças, se é ela quem passa valores morais aos filhos ou muitas vezes, fornece toda uma estrutura para seu marido, abrindo mão de suas próprias oportunidades. Não. O que faz falta é a louça lavada, a roupa passada, a comida pronta e alguém pra buscar as crianças.
Foto: reprodução

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Numa apresentação retrógada em todos os sentidos, fica difícil escolher o que é mais bizarro na proposta. A escolha de Alexandre Borges, galã da emissora como apresentador, querendo fazer as mulheres suspirarem pelo padrão típico que fomos treinadas a consumir… Spas e tratamentos de beleza, como se fosse apenas isso que fizesse uma mulher relaxar ou que pudesse interessá-la além da vida doméstica… Carinha triste dos maridos os colocando como vítimas e coitados por terem que assumir um cotidiano que as suas esposas já têm que dar conta sorrindo diariamente… Não dá nem pra selecionar o que é mais machista em tudo isso.
Apostaria que a intenção foi boa! Valorizar essas mulheres que tem jornada caseira. O problema é que ao fazer isso, e na forma com a qual a estão fazendo, cria-se uma verdadeira campanha para que as mulheres sejam domesticadas. Não do lar. Mas sim domesticadas, o que há grande diferença. Afinal, alguma jovem que assistiu ao programa achou possível em algum momento, ter uma jornada independente, ainda que em casa, vendo a situação que seus filhos e famílias ficarão? A impressão de incompetência também direcionada à mulher do lar como mãe e esposa não é nada sutil. Ao primeiro sinal de ausência da mãe, em alguns casos, os filhos já começam a se comportar erroneamente, os maridos já saem totalmente da rotina que elas demoram tanto a construir, e tudo que elas alimentam diariamente vai por água abaixo, como se na realidade, nada do que elas deixem aos seus familiares seja estruturado e firme o bastante.
Mas o pior de tudo, acredite, não é nem mesmo no programa. E sim em seus descritivos. Acreditem se quiserem, mas no site do Fantástico, o descritivo para assistir ao primeiro capítulo da série é este: “O Fantástico quer saber: será que eles vão aprender a ser mais compreensivos, mais pacientes?  E a valorizar o sacrifício que nós, mulheres, fazemos pela família?”. Então oficialmente, tudo que eles querem é sensitivizar ainda mais as mulheres? Enfraquecê-las ainda mais, mostrando como são sentimentalmente frágeis e como só merecem a paciência e compreensão de seus companheiros em decorrência de suas atividades de casa, e não às suas próprias personalidades, apoio, companheirismo ou carinho?
E deve ser considerado também o outro lado da moeda. Afinal, e os homens que não são assim? Homens mais atuais, modernos e justos, que estão ou sempre foram conscientes de suas próprias responsabilidades, e cientes de que um relacionamento é sobre união de personalidades e sentimentos e não de suas necessidades e interesses. Estes homens que também estão sendo massacrados ao serem representados por um bando de machistas folgados, primatas e antiquados também não devem estar nenhum pouco satisfeitos com a idéia nada genial do programa, ainda que sejam estes minoria, como o próprio showzinho mostra.
Sob nenhum aspecto que não a cultuação de uma sociedade ultrapassada, esse Mundo Sem Mulheres faz sentido.  É repugnante, abusivo, e absurdo que esteja sendo transmitido em cadeia nacional e bem aceito por tanta gente. Realmente, perceber que tem gente que ainda apóia isso, transmite isso e mais: elabora e cultiva tanto regresso, é Fantástico!
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10 pensamentos sobre “Mundo sem Mulheres. Sem sentido. E sem noção!

  1. o se faz falta uma comidinha bem feita na mesa, roupa/louça lavada e quando a mulé é boa outra refeiçao entre 4 paredes

    • É Reginaldo, mas a comidinha na mesa e a roupa lavada, se fazem falta, podem ser facilmente assumidas pelo homem também. E sobre a segunda parte do seu comentário, a discussão seria bem mais extensa porque não me encaixaria no “mulé”, no “boa” e também não seria uma “refeição” entre 4 paredes. Como não me encaixo, e acho que nenhuma outra mulher se encaixaria nestes termos, vou deixar esta parte em aberto para quem eventualmente possa falar sobre. Obrigada pela visita.

      • É que nossa política é responder todos os leitores, mesmo que seus comentários sejam contrários ao nosso, o que infelizmente é o caso…

  2. Data venia, apesar de também não me encaixar no respectivo perfil descrito pelo impubescente, acordei alheia e por indulto ofereço uma ligeira nota à segunda parte em epígrafe, que segue: como mulé é um mal escrito tão absurdo, tenho a liberdade de ler como quiser, portanto, mulé é mulo em italiano e como sou pró-igualdade, cada um pode se satisfazer como desejar, e a mencionada refeição entre quatro paredes deve vir de uma provável experiência obtida em cárcere. Regozijemo-nos, pois, com a felicidade do impúbere chauvinista. E a minha política é ignorar completamente qualquer comentário do energúmeno, escrevi apenas para desanuviar o cérebro. Tenham um ótimo dia.

  3. Um homem há que ser um tanto feminista! Cuidado, Regis-naldo! Só na renúncia de privilégios masculinos, que nem foram conquistados por você, mas sim te atribuídos ao longo dos séculos, é que se pode chegar a alguma medida proeminente e muita honesta de se relacionar com uma mulher. Sem paternalismos, mas na tentativa de ser minimamente justo, saiba que aquelas mulheres perigosas, sanguessugas, homicidas do afeto, a destruidora de homens, elas existem sim! E se não são de fato natas, algumas são mesmo produzidas por néscios como você. E combinam bem contigo. E são o par perfeito para um homem como você. E ela aguarda ansiosa a viúvez. E te mata bem aos pouquinhos. E se não chego a soltar foguetes de alegria no dia do seu velório, é porque eu sei que Ela também é uma vitimizada. E se uma ponta irônica se desprende leve e sorrateira do meu lábio superior esquerdo, é só uma crença fugaz na possibilidade insossa de tu teres sido o último babaca machista desta terra. Hasta breve, cara fálida!

    • Emerson, obrigada por mostrar que também existem homens diferentes. Quando escrevi o texto cheguei a me questionar e a ser questionada por pontuar também os homens que não são representados nesta série. Mas apesar de minoria, é bom saber que existem e que têm voz ativa. Obrigada pela visita, comentário, pensamento! Volte mais! Será bem vindo!

  4. Quando vi a manchete do fantástico, antes de começarem essa tal série, já disse pro meu marido: pode esperar que lá vem mais uma m.er.da machista da globo. Não deu outra. Vi o primeiro episódio e fiquei tão irritada que mudei de canal. Gostaria de que as mulheres tivessem essa consciencia.
    Valeu pelo otimo texto.

    • Infelizmente, a coisa vai rolar ainda por alguns domingos, mas foi bom saber que tinha mais gente notando quão triste é essa idéia… Volte mais vezes! Um beijinho

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