Alice e o vento.

Alice ama o vento. Sempre amou, é um fato. Ninguém deve questionar.

Alice acredita que o vento traz, que o vento é leve, que o vento a leva onde deve levar.
E Alice passou a vida toda esperando a chance de alcançar o vento e deixá-lo-lhe alcançar.
Tocá-lo, senti-lo percorrer a pele, envolvendo todo corpo e fazendo a nuca suavemente arrepiar.
O vento parece um casaco. Um sobretudo que vem dos dois lados e a veste como a roupa que jamais vai usar.
Quando o vento veste Alice, tudo ela pode. Ser quem quiser, sonhar com o que quiser, e chegar onde quiser chegar.
Alice dá conta de si quando o vento toma conta dela. E ela o abraça pra não mais soltar.
O vento, único capaz de levá-la a todos os lugares que sonhou e viver tudo mais que imaginar.
O vento que leva de Alice tudo que já houve de ruim. Tudo que Alice quis esquecer e jamais retomar.
Alice ama o vento porque ali, sorrateiro, ele se arrasta por seu rosto e lhe faz um sorriso alargar.
Foto: reprodução

Foto: reprodução

Ama o vento porque ele a avisa quando virá uma tempestade – e sempre acerta, e também faz o sol voltar.
Alice ama o vento porque ele faz contrapeso às pedras que caem da montanha em seu teto, e se esforça para que elas não a possam machucar.
O vento… Alice ama o vento porque ele a entende e sabe o quanto ela gostaria de ser como ele, de alma livre e capacidade profunda de se achar.
Mas hoje, pelo vento, Alice só quer chorar. Hoje, pelo vento, Alice só quer lamentar. Lamentar e chorar.
Chora porque o vento não fala com ela. O vento é mudo e dentre seus assovios nem sempre Alice entende o que ele quer falar.
Alice chora porque o vento vem, a envolve e vai embora. Volta pro mar, de onde surge, de onde se sente… De onde é o seu lugar.
Não importa o quão feliz Alice seja, o vento jamais se sentirá assim com ela. Ele não pertence a ela. Ele pertence ao mar.
Alice e o vento são de mundos a parte. Se gostam, se aproximam, mas hoje Alice chora porque sempre fica só, parada em frente ao mar.
O vento se vai e o sol brilha forte, tentando fazer Alice ir a outros cantos da cidade onde pode ir mas não quer estar.
São prédios altos, novos, cheios de gente esperando por Alice… E altos o bastante pra a protegê-la de todo o vendaval que ela insiste em esperar.
Mas Alice não quer os prédios. Não quer as dores e os amores da cidade. Alice quer a beira da praia, ainda que com o tempo nublado só pra o vento chegar.
Alice quer que o vento modifique cada dia, que revire tudo e nunca coloque no mesmo lugar.
Alice quer o vento só pra ela, por inteiro, prendê-lo e não deixá-lo ir pro mar.
Mas e se Alice descobrir que o vento só é vento se puder voar?
Então Alice chora, e se desespera sem parar pra pensar que talvez devesse sugerir ao vento para lhe acompanhar.
Deve ser porque Alice tem medo que o vento não saiba deixar o mar. E que ache que Alice não valha o dispersar.
E o que seria pior pra Alice do que descobrir que o vento não quer mais soprar?
Alice ama o vento. Sempre amou, é um fato. Ninguém deve questionar.
Mas e se o vento não achar que à Alice quer amar?

 

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