Não sou gay, com orgulho.

Imagine uma cena. É noite. A rua está começando a ficar deserta. Um sujeito mal encarado está vindo do outro lado da rua e parece que vai atravessar para seu lado. Você aperta o passo. Sente uma outra presença mais atrás de você. Sabe agora que tem duas pessoas na rua que normalmente está deserta. Começa a quase correr porque está com medo. Medo de ser assaltado, sequestrado, assassinado. De repente você ouve um barulho junto a um grito. Você olha pra trás e um rapaz está batendo no outro. O que está apanhando tenta se defender mas sem sem sucesso, enquanto o outro bate, bate, bate e tortura, e começa a arrancar os pertences do rapaz. Você quer ajudar mas sabe que pode ser perigoso. Corre pra casa e chama a polícia. Você está tremendo, e com muito medo, já que sua casa é bem ali e agora acha que ficará marcado. Mas pelo menos fez sua parte, e chamou a polícia. Agora me responda. Quem são estes rapazes? Feche seus olhos e imagine a cena. Noite escura. Mal encarado vindo na sua direção. Outro rapaz apanhando sem conseguir se defender. Agora, por um momento, imagine que o mal encarado é branco.  E que o rapaz é heterossexual.

Me desculpem aqueles que não pensaram nesta cena com um negro e um gay. Mas eu tenho certeza que muita gente o fez. E não ache estranho ou apenas coisa da imaginação. Mais um homossexual apanhou na rua em São Paulo. Mais uma agressão desmotivada (não que haja qualquer motivo para agredir). Mais uma vez a orientação sexual como motivo para ser degradado. Desta vez não tem o negro na história. Eu o inseri apenas porque continuo vendo gente trocar de calçada quando um negro se aproxima. E já que estou falando de absurdos, achei justo incluir este.

 

Foto: portal R7

Foto: portal R7

 

Fico na dúvida se realmente estamos na fase mais evoluída da história. Quando vejo notícias como esta  eu duvido. Eu duvido abruptamente da minha própria evolução como ser humano. Porque como ser humano, não consigo entender os que se dizem meus semelhantes proferindo um tipo de atitude repugnante e deplorável como esta. Como todas estas. Todos estes tipos de preconceitos. De extremismos e abusos cometidos com aqueles que nada interferirão na vida de seus agressores. Ser homossexual, negro, gordo, ruivo, magro, vesgo ou deficiente… Em nenhuma circunstância afeta a vida de ninguém que não a própria pessoa acometida desta ou aquela característica.  Então porque diabo existe este comportamento?

Sinceramente? Às vezes eu acho que é vontade reprimida. Uma pessoa que bate na outra completamente sem motivo, só porque ela é homossexual, às vezes me faz pensar que é uma agressão do tipo “droga, eu queria ser você”. Uma pessoa que fica xingando uma outra pessoa obesa deve dizer nas entrelinhas “sou magro mas não são tão feliz assim”. Um branco que odeia negro, na minha cabeça, tem é medo. Medo de ser mais fraco. De não ter força pra lutar, pra aguentar o dia-a-dia que é diferente só por causa da quantidade de melanina que o corpo tem.

Não. Eu não sou negra. Não sou homossexual também. Jamais saberei de fato tudo que acontece com estas pessoas porque apesar de ser mulher, acho que faço parte de um padrão mais privilegiado, que não sofre tanto preconceito, ainda que eu me considere apenas gente. Mas hoje, o que eu quero dizer é que não sou gay, com orgulho. Com orgulho de não precisar ter uma característica para saber respeitá-la. Com orgulho de não precisar ser gay para conviver com vários, e amá-los como pessoas que são, porque não me importa com quem eles dormem à noite. Não sou negra com orgulho de saber que posso apertar as mãos das pessoas sem olhar a cor de suas peles. E não sou melhor que ninguém por isso. Não sou a Madre Teresa não. Sou apenas uma pessoa que entende que o meu mundo é feito de outras pessoas. Que merecem de mim o que eu quero delas. E que são comigo as melhores pessoas que existem pelo simples fato de eu respeitá-las. Queria que um dia as pessoas provassem dessa sensação incrível que vem do apreciar a humanidade. Quem sabe assim, ao invés de imaginar quem seriam as pessoas desta história que contei, não houvesse mais essa mesma história pra contar.

 

*Dedico este texto a pessoas do meu mais íntimo convívio que são negras, homossexuais e/ou diferentes do branco dos olhos claros e que diariamente, me dão um baile de respeito, educação e humanidade.

 

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