O Gigante acordou.

“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.” Aldous Huxley

Se existe uma frase que todos estamos escutando nos últimos dias é “o Brasileiro acordou”. Mas quem, exatamente, acordou? E por que estavam dormindo? As pessoas que acompanham a luta de alguns dos movimentos sociais podem achar esta afirmação estranha, mas a verdade é que para estes grupos, muitos já estavam acordados, participando em uma luta diária pelos seus direitos, enfrentando a corrupção e o preconceito da sociedade, mas com dificuldade de voz. Estes sempre foram pequenos focos de incêndio em uma floresta muito grande. A insatisfação do brasileiro sempre foi um exercício teórico, quanto mais longe da prática, melhor. Era suficiente expressar a nossa insatisfação com o governo com piadas bobas na lanchonete ou charges espirituosas compartilhadas nas redes sociais.

Mas de repente isso mudou, tudo por causa do aumento do preço das passagens de ônibus em todo o país. Primeiro em Porto Alegre, no mês de março; dois meses depois em Goiânia. Até que finalmente a onda de protestos chegou a São Paulo e o resultado disso todos nós já sabemos. Dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas para protestar contra o aumento da passagem, mas não só ele. Não, sem dúvida essa não é uma revolta por 20 centavos, e se fosse assim jamais teria tomado as proporções que tomou. Essa é uma revolta contra o descaso, contra a corrupção, contra a insatisfação diária, contra a falta de saúde, de educação, de transporte, de direitos… Esses 20 centavos foram apenas a desculpa, a última gota necessária para transbordar as emoções reprimidas de tanta gente.

Mas por que, então, esse movimento é composto principalmente por jovens de classe média? A maioria dos críticos, se é que merecem tal adjetivo, gostam de ressaltar este ponto várias e várias vezes como se isto fosse algum tipo de demérito. A verdade é que a maioria das manifestações sempre dependeram muito da participação dos jovens. Não por serem “desocupados”, como afirmam levianamente os acomodados, mas por não serem “dependentes”. Trabalhadores, pais de família, funcionários públicos, todos dependem do modelo atual que existe em nossa sociedade. Já viveram tempo demais presos às amarras do sistema para conseguir enxergar uma forma diferente. “É assim que as coisas são”, pensam consigo mesmos, afinal, como correr o risco de perder o emprego e colocar toda a sua família em uma situação perigosa?

Foto: reprodução.

Foto: reprodução.

Pois este não é o caso dos jovens. A maioria deles ainda não possui dependentes, ainda não está presa a este ou aquele modelo, ainda tem tempo para cair e se reerguer quantas vezes forem necessárias. O jovem é quem tem a oportunidade de pensar na construção de um futuro novo e melhor enquanto os mais velhos passaram a vida toda aprendendo a como lidar com o presente que existe aqui e agora. Jovens ainda pensam em como as coisas podem ser, velhos pensam em como aproveitar aquilo que é. Mas é claro que também encontramos jovens conformados e coroas revoltados, afinal, não existe idade certa para se formar ou abandonar uma opinião – existem jovens de 70 anos e idosos de 20.

Mas e agora? O povo acordou e tomou as ruas, as pessoas estão se manifestando, demoramos tanto tempo para chegar até aqui mas para onde vamos a seguir? Assim como todo mundo, eu estou surpreso com tudo o que tem acontecido nos últimos dias, feliz que a revolta que sempre esteve presente no discurso finalmente pode ser vista nas atitudes do brasileiro. A verdade é que esse é apenas o primeiro passo. Um importante passo, sem dúvida alguma, mas estamos ainda apenas no começo da caminhada. O preço da passagem pode mesmo baixar, como de fato aconteceu em algumas cidades, mas e aí? O que fazer a seguir? Protestar até que o governo invista em educação? Ou até que diminuam os privilégios dos deputados?

O que eu espero é que todo esse barulho finalmente acorde um lado da consciência do brasileiro que sempre esteve adormecido: a consciência política. Manifestações são muito importantes, mas não vai adiantar muita coisa se não mudarmos também a cara do senado, das assembleias e das prefeituras. As pessoas precisam participar mais, cobrar mais. Como esperar um mundo novo tendo sempre os mesmos velhos representantes? Vamos mostrar que queremos algo diferente. Mostrar isso nas ruas, nas redes sociais, nas pesquisas e nas eleições. Vamos mudar o país de dentro para fora e de fora para dentro. Começando hoje, agora, e só terminando quando o trabalho estiver pronto. É isso que eu quero e espero, de mim e de todos nós.

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